Quem somos?

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De Plutão. Da Terra. Do passado, presente e futuro. De onde viemos? Para onde vamos? Este não é um blog sobre filosofia, mas é filosofia, é pensamento, são inquietações, são provocações de todo tipo, são perguntas sem respostas, são respostas sem perguntas, são viagens reais e imaginárias pelo interior de seres extraterrestres naturais da Terra. Mulheres. Somos mulheres e homens também. Propomos que saia do seu mundo e adentre o nosso, mas venha de porta aberta e saia quando quiser, somos profundamente a favor do “entra e sai” de pessoas aqui e na vida. Por essa descrição o que você conclui ao nosso respeito? Que somos loucos? Ok, seja bem-vindo! Perturbe a vontade!

domingo, 2 de setembro de 2012

"Amor - pois que é palavra essencial
comece esta canção e toda a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
reúna alma e desejo, membro e vulva..."


O inesperado está na dobra. Num bilhete deixado embaixo da porta, numa esquina que você costuma virar todos os dias, mas num belo dia ele está lá para revirar sua vida.
Saí para o trabalho como todos os dias, atrasada, catando chaves e celular pelo caminho, fiz o percurso comum sem desconfiar estar sendo seguida por ele, o inesperado. O dia corria bem no escritório, cadastrava novos clientes quando fui surpreendida por um sotaque diferente:
__ Bom dia. Pode me ajudar?
Ergui a cabeça e deparei-me com um sujeito alto, cabelos castanhos e barba rala. Parecia simpático e tinha aqueles olhos, tipo luz forte, que não conseguimos olhar fixamente. Carregava uma pilha de papeis, notas de mercadorias para serem cadastradas. Durante toda a tarde conferimos notas fiscais, e assim fui me acostumando àquele sotaque engraçado de gente do Sul, fomos entrelaçando conversas, cafés e papeis até a dobra aparecer.
__ Toma um drink comigo?
Estou acostumada a conviver com o assédio de vendedores, que aproveitam o fato de estar de passagem para viver aventuras amorosas, tem sempre o mesmo papo e as mesmas propostas indecentes, mas um não, dito enfaticamente, é suficiente nessas circunstâncias. Como costumo dizer, são ossos do ofício. Mas aquele forasteiro tinha imã nos olhos que sugavam os meus e não senti a palavra ser formada, a espertinha fugiu da boca antes de ser aprisionada:
__ Sim. Estava mesmo precisando relaxar e que mal há em conversar um pouco? Pensei.
Conversamos e rimos por muito tempo, ele sabia deixar o ambiente leve e descontraído. Quando secou o estoque de palavras, um segundo plano foi posto em ação: não há língua mais universal que olhares que se cruzam. Confesso que depois de alguns goles era quase impossível resistir ao poder daqueles olhos, meu rosto implorava para sentir o toque de sua barba. Vieram os beijos. E mais um convite:
__Vamos?
__Sim.
Nessa hora me senti profundamente irritada com minha língua que não fazia questão de prender essa palavra tão perigosa. Sim, sim, sim...eu queria, mas...tem sempre um “mas” na cabeça das mulheres. Então, quando nada mais se pode fazer a única saída é aceitar. Rendi-me.
O apartamento onde Luís estava temporariamente instalado se resumia a quarto e banheiro, uma cama, uma mesinha com alguns livros e um computador era toda sua mobília. Eu estava nervosa, tinha medo do que estava prestes a acontecer. Ele colocou uma música, virou-se e, apenas me olhou e olhou, cada vez mais perto, minhas pernas davam sinais de que não suportariam o peso do corpo, senti-me sendo despida, lentamente, pelos seus olhos. Fechei os meus. Já não podia aguentar, foi aí que senti sua respiração bem junto a minha e sua mão que subia pelas minhas costas até a nuca. Foi suficiente. Entreguei os pontos e sucumbi ao desejo, nossos corpos esqueceram-se do passado e do futuro em comum que não existia, nem existiria, e mergulharam num presente onde a música e a penumbra do quarto ritmavam uma dança quente de mãos, bocas e pernas. Quando senti a onda percorrer meu corpo notei que ele me observava como se assistisse a uma ópera: perplexo, imóvel, sorrindo satisfeito diante do trabalho bem realizado. Outras ondas vieram e nos deixamos arrastar por elas até sermos cuspidos pelo mar, exaustos.
"Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, quais estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre."
Estava feliz, sentia-me respeitada, desejada e amada. Sim, amada. A sucessão de beijos que ganhei nas costas, enquanto curtia um cochilo restaurador, funcionava mais que um “eu te amo” dito no altar. Como sou fraca para bebidas e logo me embriago, prefiro assim, amor em doses homeopáticas.
__Volto amanhã para minha cidade. Confidenciou Luís ao nos despedirmos.
E assim aconteceu. Agora, acordo todos os dias atrasada para o trabalho, saio catando chaves e celular e torcendo para que o inesperado me encontre novamente.

Olívia Meminger
Trechos retirados de "Amor pois que é palavra essencial" de Carlos Drummond de Andrade.

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