Hoje fui procurada por uma mulher. Uma mulher em carne viva,
em face tomada pelo rubor da autopunição.
Nós, que ligadas por um ínfimo acaso, parecíamos ali, produto de uma linha
de produção de mulheres marcadas, torturadas pelo peso de sua escolha.
Inicialmente achei estranha sua escolha. Eu? O que eu
poderia dizer? Mas ela não veio pra ouvir e sim falar, pois para quem está
tomado pela angústia não existe melhor conselheiro do que aquele que
simplesmente ouve.
Era pra ser a história dela, mas nos meus ouvidos só chegaram
uma história que eu mesma já estava esquecendo. Estranha mulher aflita, como
você sabe que eu passei por isso?
O seu lamento era tal qual o lamento que eu entoava aos
ouvidos amigos. Mas ao mesmo tempo em
que eu me sentia dentro daquela vida também me sentia distante o suficiente e
celebrei comigo mesma: “Eu saí dessa!”.
Sei que nada se apagou, mas tudo que aconteceu está no seu devido lugar,
naquela gaveta que eu não sei mais o que guardo lá.
A mulher aflita e tantas outras mulheres me fizeram
aperceber que todas as histórias são iguais. Talvez ainda não tenha visto todos
os capítulos e talvez estes estejam em ordens diferentes para cada uma de nós
ou mesmo nem chegaremos a vivê-los por qualquer sorte no caminho. Então vou considerar uma vantagem ter vivido
logo essa fase de âncora me puxando pro fundo. Como catapora que a gente fica aliviado
quando tem logo na infância e vem levinha e com o tempo as marcas vão ficando
desapercebidas.
Não sei se estou imune, mulher aflita, mas sei a dor como é.
Só vai doer na próxima se eu for boba demais pra não me precaver. Porque,
mulher aflita, não importa, quando nem onde, as dores são as mesmas.
Hilda Ink

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