A carta estava entre outras correspondências, as muitas que se acumulam
depois de uma longa viagem e casa vazia. Seu papel era amarelado e com uma
caligrafia bonita dizia: Caro desconhecido, preciso
falar!
Intrigado, abri:
No começo, tudo foi muito difícil.
Não aceitava de forma alguma que aquilo pudesse estar acontecendo comigo.
Calei-me por muito tempo. Privei-me de viver momentos intensos. Procurei de
todas as formas ‘maquiar’ meu verdadeiro EU, mas chegou um momento que não
estava mais dando pra suportar. Eu estava com tudo aquilo entalado na garganta
e precisava de qualquer forma conversar com alguém.
Ser homossexual numa sociedade como a nossa, é o mesmo
que ter que vencer uma batalha por dia. Enfrentar família, amigos, vizinhos,
não é fácil. Mas quando você decide ser feliz nada mais importa. Você percebe
que já perdeu tempo demais se escondendo, e que não importa o que os outros vão
pensar/falar a seu respeito.
Procurei forças onde já não havia sequer
esperança de um dia ser feliz. Mas foi nos amigos que encontrei a força que eu
tanto procurava. O oásis no meio do deserto. Um dia criei coragem e falei tudo
que eu tinha engasgado. Desabafei... me libertei de um peso que carreguei
sozinho durante anos. No começo tive medo de não ser aceito por eles, mas ao
contrário do que eu pensava, recebi muito carinho e compreensão. Não canso de
agradecê-los e de declarar diariamente o meu AMOR pelos meus AMIGOS. Eles são a
família que eu escolhi pra mim.
Hoje me aceito do jeito que sou, não
acho que possuo um distúrbio de personalidade ou qualquer outro tipo de doença,
como costumam dizer pessoas preconceituosas. Que se dane seu preconceito! Meu
mundo não gira mais em torno da opinião dos outros. Meus olhares e pensamentos
agora buscam novos horizontes e novas aventuras.
Essa carta é para dizer que posso ser
seu filho, seu irmão, seu amigo, seu vizinho ou um cidadão comum. E também é um
pedido, sou como você, então, por favor, não veja diferenças onde não existem!
Grato pela atenção.
Um ser humano qualquer
Fechei a carta com mãos trêmulas. Andei até ao banheiro e no
espelho olhei meu rosto cansado da viagem, já não era o mesmo rosto do homem que apanhou
as correspondências e imaginei o menino que escreveu a carta, sim, um menino,
foi assim que o imaginei e uma sensação de empatia invadiu meu coração. O rosto
no espelho sorriu de volta, como se dissesse: eu admiro esse garoto. Esse ser humano qualquer.
Davi Langdon


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